cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    PAULÍNIA 2010: Aplaudido de pé, Lixo Extraordinário trabalha arte e reciclagem

    Por Heitor Augusto, enviado especial a Paulínia
    22/07/2010

    Desgosto, prazer e catarse. Três sentimentos que atravessam a projeção de Lixo Extraordinário, documentário largamente aplaudido aqui no Festival de Paulínia na projeção de quarta-feira (21/7).

    O filme apresenta o contato do artista plástico Vik Muniz com os catadores de material reciclável do Aterro do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. A partir dessa experiência, surge um novo combustível criativo para Vik e, como contrapartida, os catadores diminuem sua distância com a arte e conseguem condições melhores de vida.

    Parece mais um acordo do que um filme que surge com os personagens. Lixo Extraordinário, premiado em Berlim e exibido em Sundance, começa absurdamente arrogante. Vik sai de Nova York e, após passar pela crise artística “para que serve minha obra?”, vai procurar sangue novo no lixão. A arrogância inicial é perturbadora, pois tanto seu comportamento como das câmeras que acompanham seus passos, se parecem com colonizadores.

    Não é exagero. Parece mesmo um estrangeiro “desbravando” uma “terra virgem”. Que Vik, hoje, é um corpo estranho a um lixão, é normal. Mas por que a postura arrogante? Isso é algo que incomoda profundamente no início do filme.

    Durante o desenvolvimento de Lixo Extraordinário, o processo é incorporado no documentário, talvez como tentativa de amenizar justamente o início. Quando Vik e catadores, especialmente Zumbi, Tião, Irmã, Magna, Suelem e Isis, diminuem a distância, o desconforto diminui. A partir dali parece que surge um filme.

    O final é minimamente feliz para ambos: Vik conseguiu se renovar e os catadores de material reciclável, sob a liderança de Tião, ganham visibilidade. Mas existe algo muito errado no Brasil: se a classe média não olha para o contingente de pobres e não legitima o que eles fazem (sejam política ou artisticamente), passa imperceptível. É como Marisa Monte gravando samba: se não fosse por ela, Lágrimas e Tormentos e seu compositor Argemiro do Patrocínio nunca seria legitimado como músico pelo público fora do morro.

    Alguma coisa está errada. Lixo Extraordinário é mais um exemplo desse país estranho. Um documentário que precisa ser revisto sob um olhar mais frio e sem a catarse provocado pelo final.