PAULÍNIA 2010: As Cartas Psicografadas de Chico Xavier decepciona

19/07/2010 17h21

Assistente e pesquisadora de diversos filmes de Eduardo Coutinho, como Santo Forte e Jogo de Cena, Cristiana Grumbach (Morro da Conceição) dirigiu As Cartas Psicografadas de Chico Xavier na intenção de entender a experiência das mães que perderam filhos e qual o significado de morte após uma tragédia.

Exibido no domingo (18/7) aqui em Paulínia, o documentário evidencia as opções da diretora. Primeiro: profundo respeito pelas histórias dessas mulheres; segundo: um debate em torno da representação cinematográfica da ausência; terceiro: receio de que suas intervenções desrespeitassem a forte dor da perda.

Preocupações fundamentais para quem decide fazer um filme sobre esse tipo de emoção. A decepção com As Cartas Psicografadas de Chico Xavier está em como essas mesmas preocupações transformaram a forma do filme numa prisão.

Os depoimentos são organizados em blocos e o documentário não encoraja o diálogo entre as diferentes histórias de perda. Por que a experiência de uma mãe que vive em profunda depressão não pode contrapor à história de uma outra que encontrou alento? Será que seria um desrespeito a essas tristes histórias de mães e pais serem confrontadas entre si? Creio que não.

As Cartas Psicografadas de Chico Xavier faz parecer que o corte, no cinema, é um crime. O respeito pelas trajetórias das entrevistadas pode ser mantido mesmo com interrupções e diálogos dos depoimentos entre si, dando mais fluidez ao filme e ampliando possibilidades de compreender (ou sentir) o que significa perda.

Ainda mais por causa da generosidade de Cristina Grumbach na aproximação dessas pessoas e pelo talento de conseguir que elas falem sobre algo essencialmente duro: a morte. Mas, pelas próprias opções de direção e edição, o documentário é frio.

Percebe-se em As Cartas Psicografadas de Chico Xavier outra preocupação essencial: como representar a morte? Como falar de alguém que não está mais aqui fisicamente? Cristina recorre a uma inteligente opção na primeira sequência: representar uma poltrona vazia enquanto uma de suas cartas psicografadas por Chico Xavier era lida.

O que era invenção virou convenção e, depois do uso contínuo, encheção! Quando essa sacada é utilizada na terceira vez, a paciência já foi embora. O receio ao representar a ausência venceu, infelizmente, e As Cartas Psicografadas de Chico Xavier bate na trave.


Deixe seu comentário
comments powered by Disqus