cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    Quem é Michaela Coel, mulher que fez história no Emmy?

    Ao ganhar prêmio por minissérie da HBO, atriz e roteirista causou rebuliço na indústria
    Por Flávio Pinto
    23/09/2021 - Atualizado há 30 dias

    Para quem pôde acompanhar a 73.ª entrega dos prêmios Emmy, que aconteceu no último domingo (19), uma coisa é certa: o discurso de Michaela Coel, que levou o prêmio de melhor roteiriro pela minissérie da HBO, I May Destroy You, provavelmente ainda não saiu da sua cabeça. 

    Isso porque, ao invés de agradecer a uma lista de infinita de nomes cujos quais não saberíamos associar aos rostos, a atriz e roteirista também da série de comédia Chewing Gum foi direto ao ponto e mandou uma poderosa mensagem a todos os roteiristas. 

    Além disso, ao levar a estatueta para casa, Coel quebrou um padrão da categoria e se tornou a primeira mulher negra a ser condecorada com a honraria. 

    Mas afinal de contas, quem é Michaela Coel? Neste post, vamos descobrir mais um pouco sobre a carreira da comediante britânica que fez história no Emmy. 

    Em I May Destroy You, Coel vive Arabella Essiuedu, escritora que precisa lidar com os efeitos pós-traumáticos após ser vítima de um "Boa Noite, Cinderela"Divulgação (HBO)

    Quem é Michaela Coel? Começo humilde

    Britânica, mas com origens diretamente de Gana, na África, Michaela Coel vem se tornando um grande nome na indústria televisiva nos últimos anos. 

    Atriz, roteirista, poeta, comediante, produtora e diretora, seu nome passou a pipocar nas rodas de conversa graças ao seu trabalho na série Chewing Gum, da Netflix, na qual interpretava Tracey, uma jovem em busca de perder a virgindade. A partir desse momento, sua carreira simplesmente deslanchou. 

    Mas antes de chegar ao ponto de criar e estrelar uma série de TV, Coel teve um início humilde: ela chegou a trabalhar como faxineira de praças de alimentação e bancos no Reino Unido, e também em lojas de roupa. Paralelamente aos "bicos", Michaela também cursava artes dramáticas na Guildhall School of Music and Drama, universidade britânica de artes. 

    Em entrevista ao Channel 4 News, noticiário da rede Channel 4 — emissora responsável por transmitir a primeira temporada de Chewing Gum, que, apesar de ter conseguido papéis como protagonista na faculdade, ela tinha consciência que a indústria não iria colocar mulheres negras em produções comuns ou de época. 

    No último ano da faculdade, Michaela resolveu escrever uma obra com a qual pudesse colocar suas vivências e interesses. Assim nasceu  Chewing Gum Dreams, um monólogo exibido em alguns teatros da Inglaterra. Felizmente, seus diálogos não ficariam somente aos espectadores do espetáculo.

    Chewing Gum

    Série Chewing Gum teve duas temporadasDivulgação (Netflix)

    Em 2011, Coel conseguiu um papel na série Top Boy, do Channel 4. Ao lado, ela ainda estrelou algumas peças no National Theatre, incluindo duas produções extremamente aclamadas, Home e Medea. Após três temporadas na série da rede britânica, Michaela recebeu um convite da emissora para adaptar seu monólogo Chewing Gum Dreams em uma série de TV. E assim nasceu Chewing Gum.

    Inspirada nas próprias experiências religiosos, em Chewing Gum acompanhamos a vida de Tracy, uma jovem cristã de 24 anos que deseja perder a virgindade com seu namorado. Ao levantar questões sobre religião e sexualidade — temática que ganhou mais repercussão em 2019, graças à Fleabag, de Phoebe-Waller Bridge, também inspirado em um monólogo —,  a série fez sucesso de público e crítica. Pela produção, Coel também ganhou um BAFTA como melhor comediante. 

    Problemas à vista

    Embora repleta de aclamação e prêmios, Coel revelou que a realizar Chewing Gum não foi um mar de rosas. Em um perfil muito revelador para a New York Magazine, Michaela diz ter lidado com muitos desafios profissionais enquanto tentava realizar a série de comédia. 

    Em um dos episódios descritos, Coel disse que chegou ao primeiro dia de gravações e descobriu que cinco membros negros do elenco estavam confinados a um único trailer, uma atriz branca tinha um só para ela. Ao ver a cena, Coel invadiu o escritório da produção e disse-lhes que o trailer dos atores negros parecia "um navio negreiro maldito"

    Ela pediu a um produtor que falasse com ele, mas no dia seguinte aconteceu de novo. Ela pediu para discutir com Marshall, e ele perdeu a paciência. “Ele gritou com ela como se ela fosse uma estudante travessa, a ponto de ela ficar fisicamente chateada e sair do lugar”, lembra Kirwan. “Era como se todos os dias que eu passava ganhando o respeito da equipe e do elenco tivessem simplesmente desaparecido”, diz Coel.

    Embora tenha criado, estrelado e roteirizado a produção, além de ser responsável pela supervisão de figurinos, cenários e trilha sonora, Coel ainda não tinha o título oficial de produtora executiva na série. Por isso, antes de iniciar a segunda temporada de Chewing Gum, Michaela pediu à emissora o cargo de forma oficial, mas foi negada. “Houve uma reunião de três horas e o executivo disse: 'Não, não, não, não'”, diz ela. Em vez disso, fizeram dela uma co-produtora. “Acho que tem a ver com ganância”, acrescentou. 

    Abuso sexual

    Após o fim da série que a colocou em evidência, Michaela revelou durante palestra no Festival de Televisão de Edimburgo que sofreu abuso sexual na época em que gravava a produção.  

    "Eu estava virando a noite já que tinha que entregar um episódio às 9 da manhã do dia seguinte", disse. "Então resolvi fazer um intervalo e encontrar uma amiga para tomar um drinque. A próxima coisa que eu me lembro é estar na frente do computador, no dia seguinte, digitando".

    Depois, Coel revelou que teve um "flashback" no qual lembrou de ter sido abusada sexualmente por um grupo de homens desconhecidos. "Depois que informei o incidente à polícia, comuniquei o que aconteceu para os meus chefes. E então o dilema começou: 'como operamos, nesse ramo, quando há uma emergência desse tipo?'", interrogou.

    "Do nada, todos pareciam muito ansiosos, funcionários e chefes", continuou o relato. "Nos dias seguintes, todos ao meu redor estavam sem saber como me tratar e o quanto exigir de mim. Quando há a polícia envolvida, e imagens de câmeras de segurança de homens desconhecidos carregando sua roteirista, adormecida, para lugares desconhecidos, como uma empresa deve agir?".

    Ao terminar o relato, Coel disse que a Retort, produtora de Chewing Gum, a enviou para uma clínica de recuperação e bancou a sua terapia até o fim das filmagens da comédia. Contudo, ela ainda diz que essa não foi a única experiência com assédio sexual que teve de enfrentar no mundo do entretenimento. 

    "Teve uma vez em que eu ganhei um prêmio de melhor roteiro. Em seguida, numa festa após a cerimônia, um produtor famoso da TV britânica se aproximou de mim e se apresentou. Falei: 'Ah, claro, prazer em conhecê-lo!'. Ele, imediatamente, respondeu: 'Você faz ideia do quanto eu quero transar com você agora?'. Eu dei meia volta e fui embora. Deixei o meu acompanhante sozinho na festa. Ele me ligou depois dizendo que alguém usara ofensas racistas se dirigindo a ele. Era o mesmo produtor que falou aquilo para mim".

    Por I May Destroy You, Michaela ganhou o BAFTA de melhor atrizDivulgação

    O sucesso com I May Destroy You

    Cinco anos após a estreia de Chewing Gum, Michaela lançou I May Destroy You, pela HBO em parceria com a rede BBC One. A minissérie mistura drama e comédia ao girar em torno de uma escritora que é vítima de um "boa noite, Cinderela", após uma noite em que resolve trabalhar virada. Na produção, Coel interpreta Arabella, e precisa lidar com o efeito pós traumático do incidente após lembrar do ocorrido por meio de um flashback. Soa familiar?

    Repleta de sensibilidade, a produção ganhou o mundo ao retratar a confusão emocional e mental que Arabella vive no momento em que passa a lidar com o incidente horrível. Mas sem apelar para sentimentalismo barato ou chocantes desfechos, a produção é muito intensa e crua ao denunciar crimes de conduta sexual. Estreada em 2020, a produção liderou diversas listas de fim de ano como "melhor série". 

    Trailer de I May Destroy You

    Noite de glória

    Finalizando sua trajetória artística até o momento, no último domingo, Coel ganhou um Emmy de melhor roteiro pelo trabalho em I May Destroy You. "Escrevi uma coisinha para escritores. Escreva a história que te assusta, que te faz se sentir inseguro, que não é confortável. Eu te desafio," disse Coel no palco. 

    "Em um mundo que nos seduz a navegar pela vida de outras pessoas para nos ajudar a determinar melhor como nos sentimos sobre nós mesmos e, por sua vez, sentir a necessidade de estarmos constantemente visíveis - pois a visibilidade hoje em dia parece de alguma forma equivaler ao sucesso - não tenha medo de desaparecer dela, de nós, por um tempo e ver o que vem para você no silêncio", continuou.

    Finalizando o seu discurso, Michaela dedicou sua vitória aos de abuso sexual. Com o prêmio, Michaela também se tornou a primeira mulher negra a ganhar a categoria. Veja — ou reveja — o seu momento de glória a seguir.

    Leia também