RIO 2011: A morte é um tema que assusta e fascina, diz diretor de premiado Mãe e Filha

Com dois longas e seis curtas, Petrus Cariry consolida-se com narração rigorosa e personagens ternos

10/10/2011 14h37

A Première Brasil assistiu ontem mais um capítulo do amadurecimento do cinema de Petrus Cariry. Um cinema no qual os planos não são elaborados por puro fetiche formalista ou de beleza artificial. Uma realização cerebral, mas com ternura para trazer o espectador para perto e lhe propor uma experiência. Isso é Mãe e Filha, exibido na noite de domingo (9/10) no Cine Odeon, dentro do Festival do Rio.

Assim como no primeiro longa do cineasta cearense, O Grão, a morte, a passagem do tempo, a fissura entre gerações e o ruído que surge do embate da cidade com o interior. Mãe e Filha tem o encontro de uma filha que volta ao sertão para cumprir uma promessa à sua mãe: levar-lhe o neto. Porém, ele está morto.

“A morte é um tema que me assusta, mas também fascina”, diz Cariry em entrevista ao Cineclick. Abordá-la é, para o cineasta, um gesto de autoconhecimento. “Mesmo sendo novo, penso na morte, tenho medo de como lidar com a velhice quando ela se aproximar”. Aos 34 anos, Cariry, filho do também cineasta Rosemberg Cariry, realiza filmes desde 2002, quando dirigiu o curta-metragem documental A Ordem dos Penitentes.

Desde então, foram seis curtas, além do longa O Grão, que acumula mais de 30 prêmios em festivais de cinema. Já Mãe e Filha, antes de ser exibido no Festival do Rio, foi laureado como Melhor Filme do Cine Ceará.


O cineasta Petrus Cariry, que trouxe ao Rio Mãe Filha: "Visito sets de filmagens desde muito cedo por causa do meu pai".

Barroco

No novo filme, o cineasta aproxima-se mais do barroco e constrói cenas que parecem ter sido extraídas de quadros. Para quem acompanha seus filmes, o rigor da câmera não é novidade. Porém, Mãe e Filha chega a um nível poderoso de rigor e ternura, realismo e fantástico.

“A verdade é que eu queria compor o filme como telas”, conta Cariry. No processo de iluminar as conversas noturnas de mãe e filha numa casa construída numa cidade de ruínas, Rembrandt e Velázquez foram fundamentais para a beleza do filme.

“Mas tem muita coisa inconsciente também, fruto de uma cinefilia”. As mais perceptíveis são o português Pedro Costa, que Cariry sempre assumiu ser uma grande influência em seus trabalhos; Béla Tarr, húngaro da obra-prima Satantango, recentemente homenageado na Mostra Indie; e Tarkovski. Mas ressalte-se: são imagens que estão no subconsciente e passam ao largo de um desejo por citações intelectuais.

No tratamento da morte e das relações familiares, Petrus Cariry promete ir mais a fundo e fugir, assim como em Mãe e Filha, do registro realista. “Estou escrevendo meu próximo filme, que vai se chamar Clarisse: um acerto de contas entre filha e pai. Será um filme mais denso e pesado. Quero fazer um filme ainda mais opressor”.

Antes, temos o lançamento de Mãe e Filha. “Vai depender do desempenho aqui no Festival do Rio”, conta. Se for premiado em categorias importantes, a distribuidora Lume Filmes deve aproveitar a mídia espontânea e colocá-lo nos cinemas no fim de novembro.


Deixe seu comentário
comments powered by Disqus