RIO 2011: Elenco segura irregularidade de filme que adapta Guimarães Rosa

Dirigido pelo estreante Vinicius Coimbra, longa leva para as telas o conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga

15/10/2011 13h17

Guimarães Rosa dobra e redobra a língua em literatura, cria ritmo e prosa. Encanta por seu tema, mas muito mais por sua linguagem. Justamente o que A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o filme baseado no conto do escritor, não consegue fazer: encantar pelo o que é como cinema. Isso é uma frustração.

Um comentário após a sessão de A Hora e a Vez de Augusto Matraga explica um pouco das contradições do filme e do sentimento de decepção. Trata-se da tentativa de unir a linguagem fluida Rosa com um jeito de filmar engessado.

O filme, por se basear no autor que nos mostrou a poesia de um lugar e colocou o português falado no Brasil num patamar inalcançável, tem um texto maravilhoso. O elenco encabeçado por João Miguel, mas especialmente os coadjuvantes interpretados por monstros da atuação, é vibrante. Então por que o filme do estreante Vinicius Coimbra é irregular?

Por sua fidelidade irrestrita aos cânones do cinema clássico, o que cria uma contradição para um texto que de clássico – no sentido de escola literária, não de sua valoração como obra para a posteridade – não tem nada. Essa aproximação do filme de sua matéria-prima é mal resolvida por toda a projeção.

Matraga é um herói moderno colocado numa caixinha que não o deixa fluir, com uma trama que se autoexplica constantemente, com um flashback para sua infância desnecessário, com as passagens de tempo clichês, a trilha exagerada e marcações narrativas previsíveis (o grande duelo, a principal mudança de comportamento, a moral da história).

Percebe-se o desejo que A Hora e a Vez de Augusto Matraga tem de ser popular, o que não é, em princípio, demérito algum – O Palhaço, de Selton Mello, está aí para nos provar isso com sua maravilhosa encenação. O que compromete o filme é a execução claudicante de uma narrativa clássica e, pior, a prisão que ela significa para o filme.

O que frustra é o fato de o longa ter cenas muito boas (como a recuperação de Nhô Augusto depois da sova dos capangas do Major Consilva, embalada pelo canto de seus pais negros) emparelhadas com algumas medonhas (a do cavalo atolado, em câmera lenta). Essa irregularidade faz com que outras passagens interessantes do filme, como os planos que remetem aos faroestes de John Ford e Henry Hathaway, percam força no conjunto.


Chico Anysio, que não compareceu à sessão por problemas de saúde: participação em filme é marcante

Elenco segura as pontas

Estreante, o diretor Vinicius Coimbra cercou-se de alguns craques para auxiliá-lo na missão de levar novamente o conto de Guimarães ao cinema – a história já havia sido adaptada por Roberto Santos em 1965. Na fotografia, Lula Carvalho (O Palhaço). No elenco, alguns de nossos melhores atores.

João Miguel é Matraga. Chico Anysio, numa participação pontual e marcante, é o Major Consilva. Irandhir Santos, nosso ator em atividade que mais se joga em direção a um personagem, é Quim, o covarde e fiel ajudante de Nhô Augusto, e rouba a cena. Temos também o gigante José Dumont como o padre, Zé Wilker como o destemido Joãozinho Bem-Bem. Um destaque especial a Teca Pereira e Ivan de Almeida, dos quais não conseguimos desgrudar os olhos no filme.

Grande elenco (em tamanho e talento) e um fotógrafo criativo não conseguem, porém, esconder as deficiências de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, um dos competidores pelo Troféu Redentor na Première Brasil, principal mostra do Festival do Rio.

Serviço

Sessões de A Hora e a Vez de Augusto Matraga

Sábado (15/10), às 15h15, no Pavilhão do Festival [PV016]
Domingo (16/10), às 17h40, no Estação Vivo Gávea 3 [GV347]
Domingo (16/10), às 22h10, no Estação Vivo Gávea 3 [GV349]
Segunda-feira (17/10), às 14h, no Roxy 2 [RX041]
Segunda-feira (17/10), às 19h, no Roxy 2 [RX043]


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