RIO 2011: Se esperam o Willem Dafoe do Homem-Aranha,o problema não é meu, afirma ator ao Cineclick

Ator fala sobre espectadores frustrados com atores de Hollywood que embarcam em projetos ousados

11/10/2011 18h27

Willem Dafoe, duas indicações ao Oscar, é um nome facilmente reconhecível pelo grande público. Por um largo período, teve como maior patrão Hollywood, que dá o sucesso, mas restringe possibilidades de criação – à exceção de alguns diretores-grifes. O ator de 56 anos veio ao Festival do Rio para falar de uma faceta menos conhecida: a de ator de filmes independentes.

Dafoe protagoniza três longas exibidos na programação da mostra carioca: 4:44 Last Days on Earth, terceira colaboração com Abel Ferrara; o australiano O Caçador, de Daniel Nettheim; e Uma Mulher, dirigido por sua parceira Giada Colagrande, sobre o qual o ator falou ao Cineclick.

“Ao contrário de uma produção da indústria, nesse filme não senti a pressão sobre cada gesto”, contou o norte-americano na tarde desta terça-feira (11/10) na conversa em um hotel de Copacabana. Não faltou um comentário com a Hollywood do presente, comandada por executivos de transnacionais que pouco sabem de cinema.

“É claro que Hollywood está em crise, assim como o resto do mundo. Ela é um business”. Justamente por atravessar uma redefinição de modelo de negócio (empobrecimento narrativo, projetos concebidos já como franquia, novas mídias, home video, montanhas de dinheiro gasto com marketing etc), Dafoe acredita que exista espaço para filmes de arte. “Quando as coisas estão muito ruins é a chance para coisas novas acontecerem”.


Dafoe ao lado da esposa Giada Colagrande, italiana que o dirige no longa-metragem Uma Mulher

Em 34 anos de carreira – Willem começou aos 22 anos na companhia experimental de teatro The Wooster Group, de Nova York –, manteve um pé na indústria, outro em produções independentes. Foi o vilão Green Goblin da franquia Homem-Aranha e o atravessador de Existenz, o torturado de O Paciente Inglês e a energia de Go Go Tales.

Instigado pela reportagem a comentar a fúria com que parte do público recebeu a presença de atores como Sean Penn e Brad Pitt num filme como A Árvore da Vida, Dafoe não buscou uma saída a gauche.

“Encontro duas respostas para Terry Malick querer trabalhar com duas estrelas, já que não vai usá-las convencionalmente: auxiliar no financiamento, mas também um desejo de não ser relegado a um gueto de arte, pois ele sente que seus filmes, mesmo difíceis, são para todos”. Dafoe comentou ao Cineclick o sentimento dos espectadores brasileiros que se sentiram traídos por seus atores que os levaram a assistir a um filme exigente. “Quem faz o filme não pode ser responsável pelo gosto dos espectadores: se eles odeiam o filme, isso não pode estar atrelado ao fato de que Sean Penn não faz o que eles gostariam que fizesse”.

Como profissional que transita dentro e fora da indústria, Dafoe se identifica com seus colegas. “Sinto a mesma coisa, pois os filmes alternativos que faço são oportunidades para mim. Se alguém quer ver o Willem Dafoe do Homem-Aranha em um filme como Uma Mulher, vai ficar desapontado. Mas isso não é problema meu, mas das pessoas”.


Willem Dafoe em cena de 4:44 Last Day on Earth, um de seus três filmes exibidos no Festival do Rio neste ano

Registro não realista

Uma Mulher representa não só mais um capítulo de Willem Dafoe com o cinema independente, mas também um tipo de atuação que foge do naturalismo. Uma aspiração da diretora Giada Colagrande, que volta a trabalhar com Dafoe após Before It Had a Name, de 2005.

“Prefiro o cinema que transita numa dimensão puramente cinematográfica, que não é a cópia da realidade”, afirma. Italiana, Giada cita o registro fantástico do conterrâneo Fellini ou a rigidez do alemão Fassbinder como referências do tipo de atuação que espera de seus atores. “É esse tipo de cinema que mudou minha perspectiva do mundo”.

Para Dafoe, habituado tanto com filmes que mostram personagens tentando emular a realidade quanto com cineastas que exigem demais em outros registros (caso de David Cronenberg, Lars Von Trier e Abel Ferrara), aproximar-se de uma dramaturgia mais próxima de Brecht é um saudável desafio.

“Os filmes que copiam a realidade almejam ser mais fáceis de engolir, pedindo um tipo de interpretação que não é verdadeiro, mas passa a sensação de verdade porque é facilmente reconhecido”. Dafoe enterra uma pedra no registro naturalista, contradizendo até muitos de seus trabalhos para o cinema. “Um filme como Uma Mulher é estranho e apela para um tipo de poesia e meditação que apenas o cinema pode trazer, ao contrário da televisão”.

Serviço

Willem Dafoe no Festival do Rio – Horários das sessões

4:44 Last Day on Earth
Sexta-feira (14/10), às 19h, no Odeon Petrobras [OD031]
Sábado (15/10), às 16h, no Estação Sesc Botafogo 1[BT159]
Sábado (15/10), às 22h, no Estaçã oSesc Botafogo 1 [BT162]
Domingo (16/10), às 13h10, no Estação Vivo Gávea 5 [GV546]
Domingo (16/10), às 17h30, no Estação Vivo Gávea 5 [GV548]
Domingo (16/10), às 21h50, no Estação vivo Gávea 5 [GV550]

Uma Mulher
Terça-feira (11/10), às 21h15, no Estação Sesc Rio 2 [ER229]

O Caçador
Quinta-feira (13/10), às 14h30, no Estação Sesc Rio 2 [ER238]
Quinta-feira (13/10), às 21h15, no Estação Sesc Rio 2 [ER241]


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