cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    Riocorrente expõe dramas existenciais urbanos em Brasília

    Filme de Paulo Sacramento ousa na narrativa, mas tem conclusão conservadora
    Por Roberto Guerra, enviado especial a Brasília
    23/09/2013
    Riocorrente

    Em entrevista na manhã desta segunda-feira (23) em Brasília, Paulo Sacramento disse que seu longa, exibido na noite anterior como parte da mostra competitiva de ficção do Festival de Brasília, exige uma postura de quem o vê. "Ele é rápido, pesado e urgente. Vem na tua direção e você tem de processar aquelas informações e construir seu próprio quebra-cabeça".

    De fato assisti-se a Riocorrente sem a possibilidade da frouxidão intelectual. É preciso fazer um esforço mental contínuo para colher suas muitas peças jogadas inadvertidamente e delas construir um todo, que pode destoar completamente das impressões da pessoa sentada ao seu lado na sala de cinema. Não há espaço para a dispersão momentânea, para pensamentos alheios. Se sair da trama por breve momento, dificilmente embarcará de novo.

    Riocorrente não é um filme para todos os públicos. Não que seja hermético, propositadamente dificultoso. É, na verdade, urbano até a medula e dificilmente alguém que nunca morou numa cidade grande e caótica como São Paulo - onde o longa é ambientado - conseguirá ter a dimensão e compreensão do drama existencial de seus protagonistas.

    A personagem que mais encarna essa desordem que nasce da vivência na metrópole é Renata, vivida pela sempre eficiente atriz Simone Iliescu. Ela não é uma mulher simplesmente dividida entre dois amores. Seu conflito não é decidir com qual dos dois homens de sua vida ficar. Torna-se claro que é a aventura de manter romances paralelos que a motiva.

    Um deles é o jornalista Marcelo, sujeito aparentemente normal, satisfeito com sua rotina urbana, defendendo-se do entorno caótico que o cerca com a razão. Não ousa sair do trilho sem um "planejaremos isso no jantar", quando Renata, por exemplo, propõe que peguem um carro e façam uma viagem sem rumo. Ele precisa saber para onde, quando, por quê?

    O Exu de todos nós

    Renata goza na cama de Marcelo e sua vida certinha, mas precisa do orgasmo inconsequente nos braços de Carlos, outro personagem típico do cenário urbano moderno brasileiro: homem na faixa dos 30, sem perspectivas, que tenta viver na legalidade, mas se vê forçado a cruzar a fronteira recorrentemente. Ele vê em Renata a esperança de dias melhores, mas ela sabe que Carlos não será seu futuro.

    E a ausência de Renata, fugidia, deixa claro a ele a inevitabilidade do destino obscuro que o persegue, que no filme é representado por Exu, menino de rua. Exu, na verdade, não é um personagem real. No filme aparece como um garoto que vagueia pela cidade cometendo pequenos delitos, mas pode ser lido como o passado de Carlos, que este tem de carregar aonde vai.

    Riocorrente, a despeito da proposta ousada, acaba por ser conservador e um tanto óbvio em seu quarto final. Renata, a mulher, recorre ao choro. Marcelo, de pouca iniciativa, atravessa um semáforo vermelho como forma patética de se afirmar. Carlos coloca o passado que o persegue no banco de trás de um carro e literalmente queima suas frustrações para renascer das cinzas como uma fênix.

    Paulo Sacramento diz que uma das maiores dificuldades que tem é quando pedem para explicar em poucas palavras o filme, "porque é um filme sobre muitas coisas". Sem dúvidas. Riocorrente é uma produção difícil de explicar com palavras, quase impossível de se enquadrar dentro de um gênero e repleta de simbologias. Mas certamente umas dessas "muitas coisas" vai te fisgar.

    O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro segue até o dia 24, quando serão conhecidos os vencedores de sua 46ª edição.