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    Scarlett Johansson, que voz é essa? Entenda o efeito da atriz em Ela

    É impossível separar Samantha de Scarlett: a mudança de Spike Jonze foi decisiva
    Por Cristina Tavelin
    12/02/2014

    Desde que Scarlett Johansson foi "proibida" de concorrer ao Globo de Ouro por seu papel em Ela, novo longa de Spike Jonze, veio à tona a discussão sobre o uso de sua voz. Poderia ser considerada uma atuação essa presença semelhante a uma dublagem?

    Tirando o foco das premiações que nada acrescentam à discussão sobre cinema, uma coisa é fato: a escolha da atriz não foi qualquer escolha. Ao desistir de sua opção inicial já na fase de pós-produção, Jonze fez uma mudança drástica.

    Se antes o Sistema Operacional Samantha seria criado a partir da desconhecida Samantha Morton, seu papel foi instantaneamente emoldurado após a troca. Todo o imaginário do filme passou a ser construído ao redor de Scarlett, limitando a liberdade de imaginação.

    Ao pensar por quem Joaquin Phoenix se apaixona, logo vem à mente a bela loira de Hollywood, figura sedutora onipresente com sua voz rouca e sensual. Tente trocá-la por Susan Sarandon e terá um efeito completamente distinto. 

    Scarlett Johansson

    Duas questões emergem dessa Scarlett onipresente: estimula-se a pensar sobre a força de uma imagem mesmo em sua ausência, efeito próximo ao de uma propaganda subliminar; e, por outro lado, mostra o apaixonar-se pelo viés que escapa à carne e à forma. Theodore se interessa pela "personalidade" que ganha contornos interessantes à medida do desenvolvimento de seu sistema.

    Em uma cena desse romance híbrido entre humano x virtual, Samantha compõe uma música para Theodore. Diante da impossibilidade de aparecer numa foto para os dois terem uma recordação, a música ganha o papel de eternizar um registro invisível.

    Agora, pontuado o impacto da voz, passemos à complexa relação dos personagens e seus meios de comunicação nas linhas e entrelinhas. 

    + Leia a crítica de Ela

    Ausência do corpo x Corpo do outro

    Relacionar-se exige comunicação verbal e não-verbal, envolve palavras e movimentos, numa importância de pesos iguais.

    Para suprir a ausência do corpo, uma escolha interessante é tomada: Samantha escala outra moça para intermediar sua relação carnal com Theodore. Ao recebê-la em sua casa meio a contragosto, olha nos olhos da jovem, mas não consegue se conectar à voz. O corpo vira, literalmente, um objeto.

    Entretanto, a garota sente-se bem em sua função, pois imagina servir de ponte para um sentimento real. Existe um abismo entre os dois e o terceiro elemento vira uma tentativa de conectar o virtual ao concreto. Escolher falar de amor tirando sua propriedade da imagem é outro mérito. Remete ao intocável e ao sublime. Esse contraponto impõe sua presença em toda a obra de Jonze - usar o artifício da tecnologia para falar do não palpável.

    De qualquer forma, há o peso angustiante do impossível na relação dos dois, principalmente por parecer tão propícia a durar. Arcade Fire, banda responsável pela composição da trilha, tem uma música muito adequada a esse contexto: My Body is a Cage (Meu corpo é uma jaula).

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    Olivia Wilde

    Porém, na mesma medida em que a forma passa a não ser essencial para o amor, as relações se tornam mais complexas, pois exigem o suporte da razão: certeza de configurar um sistema semelhante a você, com a maior probabilidade de chances de dar certo, ao invés da incerteza de perder tempo com alguém. A ótima cena do jantar com a pretendente representada por Olivia Wilde mostra exatamente isso.

    O espaço entre as palavras

    Agora que os elementos foram dissecados, podemos colocá-los da seguinte forma, mas sem ordem definida: corpo (e papel), voz, comunicação pós-verbal e morte (ou fim). Ela se desenvolve nesse movimento.

    Do mundo de Theodore escrevendo cartas por pessoas sem habilidade emocional, de seu corpo, chega-se à interação com a voz de Samantha, que não está presente fisicamente, mas ainda consegue se comunicar por um meio limitado.

    As mensagens do personagem de Phoenix usam desse suporte ultrapassado chamado papel e falam sobre sentimentos puros. Por outro lado, eles são forjados, criados para despertar sensações em estranhos. Incerteza e fragilidade são sentimentos ultrapassados? Possivelmente. Melhor alguém com expertise para torná-los certeiros e atingir a meta desejada.

    Um passo à frente, a partir do seu ganho rápido de conhecimento, Samantha evolui de tal forma que as palavras não lhe servem mais de suporte e ela sente a necessidade de conversar com outros SOs na comunicação denominada de "pós-verbal". O meio da palavra se torna obsoleto, assim como o do papel havia se tornado em relação ao computador. É uma evolução constante e destrutiva - e faz um paralelo com o relacionamento dos dois.

    Eis que surge a seguinte passagem: "As palavras estão muito separadas, e os espaços entre elas são quase infinitos (...) É um lugar que não está no mundo físico. É onde todo o resto está, e eu nem sabia que existia."

    Um espaço infinito entre as palavras, ou seja, um lugar onde a comunicação não serve de ferramenta e nem pode traduzir o que lá existe. O além? Pode ser, e não apenas no sentido metafísico. O que esse espaço indizível representa, nesse contexto, talvez seja a possibilidade do que não foi dito - do novo.

    A proposta de Ela, no final das contas, foi exatamente a de tentar levar algumas palavras para esse lugar.