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    Como mulher negra, assistir Them foi uma experiência dolorosa

    Nova atração do Amazon Prime Video traz retratação crua e explícita sobre o racismo
    Por Thamires Viana
    22/04/2021 - Atualizado há 3 meses

    Quando eu vi o primeiro trailer de Them, série criada por Little Marvin para o Amazon Prime Video, minha expectativa aumentou consideravelmente. Como uma boa fã de terror, já imaginei que ali estava mais uma produção do gênero que me faria arrepiar a espinha. No entanto, eu não esperava que os dez episódios fossem me causar outras sensações físicas que, de fato, me marcaram ainda mais.

    Antes de começar esse texto, devo contar um fato importante sobre mim que fará sentido à análise a seguir: sou uma mulher negra de 28 anos e, assim como toda pessoa negra que habita esse planeta, eu também já sofri racismo. Portanto, assistir a atração não foi uma tarefa nada fácil!

    A trama acompanha os Emory, família negra composta por pai, mãe e duas filhas, que sai da Carolina do Sul rumo à Los Angeles. Ambientada nos anos 50 durante A Grande Migração, período em que diversas famílias negras deixaram o sul dos Estados Unidos para tentar a vida em outras regiões, os Emory vão morar em um bairro predominantemente branco. Eles não são bem recebidos no local e percebem, logo de cara, que a convivência ali será um verdadeiro inferno. Além de forças sobrenaturais que assombram o novo lar, há ainda dezenas de pessoas dispostas a destruir a vida dessa família.

    Cena da série OutrosReprodução / Amazon Prime Video

    Algo que me chamou a atenção no primeiro episódio é que Marvin, que com Them estreia na ficção, não poupa o espectador de incômodos. Ele escancara da forma mais crua possível a sua intenção. Ele quer chocar, horrorizar e te fazer sentir a dor que o racismo causa. Você não precisa ser negro para entender isso, mas precisa ser empático e consciente, além de ter, claro, o mínimo de bom senso! 

    O horror proposto no trailer, com forças sobrenaturais e malignas, está bem colocado, mas é a ponta desse iceberg e perde o fôlego em alguns momentos. Them não quer que você se assuste com os jumpscares ou com uma entidade que vive no sótão dos Emory, mas, sim, que você se apavore, literalmente, com a mente humana e com a crueldade que pode vir das atitudes das pessoas ao redor. 

    A dor de Lucky, personagem de Deborah Ayorinde, é de uma mãe que traz consigo o trauma de perder um filho. A de Henry, o pai interpretado por Ashley Thomas, é também essa, porém mesclada a de um homem que se esforça ao máximo para dar o melhor para sua família. Já Ruby, a filha mais velha vivida por Shahadi Wright Joseph, sofre por não se aceitar, enquanto a pequena Gracie (Melody Hurd) se deixa levar pelas visões da Sra. Vera, personagem de um livro infantil. 

    Embora cada um tenha suas próprias angústias, os Emory enfrentam o racismo em sua maneira mais explícita sofrendo xingamentos, agressões físicas, represálias e torturas. A violência gráfica não é poupada e soa como ponto de partida da narrativa, tanto que a atração recebeu a classificação de 18 anos e contém avisos prévios antes do início dos episódios.

    Ao final do primeiro capítulo lembro de sentir o estômago embrulhado e a ansiedade a mil, algo que não esperava para um piloto de série. Porém, foi ali que eu percebi que ver Them seria uma tarefa árdua. Deve ser aqui que você se pergunta: "e por que você não deixou de lado?

    Bom, eu mesma considerei, mas ao mesmo tempo a curiosidade em ver onde ela chegaria falou mais alto e já parti para dar o play em um próximo capítulo. Erro meu, já que a série não é maratonável, não! Você precisa digerir cada cena que assiste, portanto é preciso pausar, esfriar a mente e só então voltar para ela. 

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    Cena da série OutrosReprodução

    A dolorosa tarefa em assistir a Them tem ainda uma outra explicação além de ser gatilho para quem já sofreu racismo. É rotineiro ligar a TV num telejornal ou acessar um portal de notícias e se deparar com pessoas negras morrendo todos os dias. E, ao direcionar a atenção para o entretenimento, vemos mais uma vez os negros se tornando vítimas. É extremamente cansativo e doloroso sentir-se em um labirinto ou em uma espécie de loop temporal onde o final, infelizmente, ainda é o mesmo até na ficção.

    No entanto, vale ressaltar que o intuito de Them vai além de só retratar a realidade e chega como uma crítica ampliada e sem filtros do que é sofrer com o racismo. Marvin e a produtora executiva Lena Waithe não são os primeiros a transformar o terror em crítica, mas a forma crua e, talvez extremista, é proposital. Não à toa, a atração se tornou polêmica logo após a sua estreia e já vem sendo considerada uma das mais perturbadoras sobre o tema.

    Them não é uma série para passar o tempo comendo pipoca e tomando alguns sustos esporádicos, mas, sim, uma atração que vai te fazer refletir ainda mais sobre uma dura e angustiante realidade. 

    A primeira temporada da atração conta com dez episódios que variam de 40 a 50 minutos e está disponível no Amazon Prime Video

    Teaser oficial

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