TIRADENTES 2011: Filmes políticos discutem tempos modernos

Mostra de Tiradentes abriga produções que pensam a juventude e peso das gerações anterioers

27/01/2011 15h22

Fazia tempo que um bom curta-metragem produzido na ECA-USP não dava as caras em um festival de cinema. Filme bom mesmo, daqueles que pegam pela estética e pela alma, cabeça e coração. Na sessão da tarde de quarta-feira (26/1), os estudantes da USP disseram alguma coisa.

Mas acabo de lembrar que cometi uma injustiça nesse primeiro parágrafo. A ECA-USP tem feito coisas boas, mas todas em torno do Filmes do Caixote, produtora de amigos que realiza os curtas da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas (Um Ramo, Sombras) e Caetano Gotardo (Areia, O Menino Japonês).

Por isso, é muito bem-vinda a Série 5 da Mostra Panorama de curtas-metragens. Uma sessão do tipo “decifra-me”: todos os filmes têm algum grau de sofisticação para a entrada do espectador – alguns mais elaborados, outros simplórios. Dois são produções vindas da ECA-USP: Zeit to the Geist e Cão, exibidos ao lado de Rocco e Sobre o Resto dos Dias.

Sinal dos tempos

Quem é essa geração que ainda vive às sombras dos acontecimentos políticos dos anos 1960 e da agressividade punk dos 70? O que se faz com o hoje e o ontem, quando existe um tal de anos 80 no meio?

A resposta que Zeit to the Geist dá, em termos de cinema, é bem criativa – só não posso contar para não estragar a surpresa. Tem ali no filme de Diogo Faggiano uma gaiatice, um pouco de Godard, muita ironia, embaralhamento da textura, mais outro pouco de Kubrick, fantasia e política. Um guerrilheiro vestindo uma camiseta do Super-Homem debaixo de terninho empunha sua metralhadora e dispara tiros imaginários contra o passado. Filme com alma.

Rocco, produção vinda da PUC-RS, não busca respostas ou faz proposições, apenas constata o quê de uma geração e realiza um exercício formal cinematográfico. O falso documentário de Filipe Matzembacher nos conta quem é o personagem do título, uma figura renegada pela história oficial, mas guardado afetivamente na memória dos amigos e marcado na cena cultural da cidade.

E por que falar tanto da ECA?



A razão de abrir este texto falando da produção da ECA-USP justifica-se aqui, com o média-metragem Procura-se [foto 2] Assistir a Zeit to the Geist e Rocco aqui na Mostra de Tiradentes me fez pensar exatamente no filme de Rica Saito, que circulou no É Tudo Verdade – Festival de Documentários em 2008.

Nele existe tanto a busca pela resposta de uma geração que tem nas costas o peso de outras que fizeram “mais” ou viveram num período em que a História andou mais rápido quanto a estrutura de falso documentário sobre um clima verdadeiro. Mário Rocha, o personagem principal do “documentário” de Saito, foi um músico maldito que inspirou uma geração. Não importa ou não se ele existiu porque houve muitos Mários Rochas no Brasil.

Rocco tenta fazer isso com um personagem “fictício” punk, mas não vai além do exercício formal e dramatúrgico. Como cinema, é apegado demais às falsas entrevistas. Mas tanto produção gaúcha quanto Zeit to the Geist travam um forte diálogo com Procura-se ao propor respostas e ironias ou apenas constatar que geração é essa e o que se espera dela.

Sessões políticas

Quarta-feira foi mesmo o dia da política em Tiradentes. Além dos curtas-metragens, tivemos o longa-metragem Sertão Progresso, na competição da seleção Aurora, principal da mostra mineira.

O tema: transposição do Rio São Francisco. A forma: entrevistas e excertos de falas no rádio e na televisão a favor e contra à hiper obra do governo Lula. Tenho a sensação de que o documentário não encontrou qual frente queria integrar.

A obra de transposição já é uma realidade imposta pelo governo federal. Lançar um documentário em 2011 sobre o tema é necessariamente se posicionar: se a favor, dar suporte; se contra, pontuar que se trata de um grande erro para a convivência das populações nordestinas no semi-árido.

Sertão Progresso fica num estranho limbo. Coloca opiniões dos dois lados para fornecer elementos para o debate. Só há um porém: o período do debate já passou e foi atropelado pela voz oficial. O que dá para fazer agora é manter a crítica e se posicionar, não ficar em cima do muro. A hora de ficar em cima do muro, se é que há momento para isso, se esvaiu.

Para o conhecimento da questão, o documentário de Cristian Cancino (e subutiliza um gênio no assunto, Aziz Ab'Saber) acrescenta pouco além do que a imprensa já o fez. Como cinema, também não alumbra. Aí fica difícil do filme sobreviver.

*O repórter viajou a convite da organização do festival.


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