TIRADENTES 2011: Polêmica sobre Rio São Francisco chega atrasada

Documentário Sertão Progresso fica em cima do muro ao falar sobre transposição do Velho Chico

27/01/2011 10h13

























Fazia uns nove ou dez anos que eu não vinha à Mostra de Cinema de Tiradentes. É emocionante notar como ela, mais do que cresceu, se desenvolveu e cavou com muito talento seu espaço no competitivo cenário dos eventos cinematográficos brasileiros (que já soma mais de 200 festivais e mostras a cada ano). A cidade está lotada de pessoas – jovens, na maioria – que enchem bares, restaurantes, praças, ruas e principalmente os 650 lugares da Tenda onde a programação principal é exibida.

E que não se perca pelo nome: a tal “Tenda”, ainda que seja uma estrutura provisória, montada e desmontada a cada edição do evento, oferece som e imagens primorosos, entre os melhores do país, e muito, muito superiores a muito multiplex por aí. As cadeiras não são exatamente as ideais para este cinquentão que vos escreve, mas aqui me informam que elas melhoraram muito em relação ao ano passado. Sorte minha.

Mas é melhor ver bons filmes, e bem projetados, em cadeiras regulares, a ver filmes regulares em poltronas confortáveis. Disso os cinemas comerciais já se ocupam. O experimentalismo, o ineditismo, o frescor do olhar e do fazer, o debate de ideias, as novas tendências, são as marcas registradas da Mostra de Tiradentes, que tem como um de seus grandes méritos fugir do lugar comum, do cinema comum.

Aqui, abre-se espaço para novos cineastas – de idade ou de mentalidade – que provavelmente mapearão os rumos da futura produção brasileira. E por isso mesmo a probabilidade de erro é maior. Que delícia! Como é bom errar! Como é bom rasgar as cartilhas de roteiro, os cânones ultrapassados das narrativas tradicionais e aventurar-se por outros caminhos que a linguagem cinematográfica nos abre. Como é revigorante ver filmes cujos realizadores têm mais vontade de acertar que medo de errar... ou melhor, que desprezam as definições padrão do que possa ser “erro” ou “acerto” quando o assunto é cinema.

A polêmica de São Francisco

Sertão Progresso, o longa metragem exibido na tarde de ontem na 14ª Mostra de Tiradentes, enfoca a polêmica da mega obra da transposição das águas do Rio São Francisco. Representando São Paulo e dirigido por Cristian Cancino, o documentário abre voz e vez às opiniões favoráveis e contrárias ao polêmico projeto. Tenta cobrir a questão dos mais diversos ângulos, entrevistando técnicos, políticos, população, presidente da República...

De forma mais jornalística que cinematográfica, opta por não optar, por não tomar partido, mas sim por jogar o problema na mesa de discussões. Neste sentido, o filme contribui para o debate de ideias, mas não para o cinema.

Fica devendo também na questão da profundidade. Tem-se a impressão que os depoimentos mostrados já foram vistos na TV. Fica-se com sede de ouvir muito mais (ou pelo menos um pouco mais) do geógrafo Aziz Ab'Saber, uma das maiores autoridades mundiais sobre o assunto, entrevistado pela equipe do filme, mas com pouquíssimo tempo na tela.

Talvez este olhar paulista sobre um tema tão acaloradamente nordestino tenha tornado a questão um pouco distante, engendrando assim uma narrativa por vezes burocrática. Talvez. Mas o fato é que toda a discussão sobre a transposição das águas do Rio São Francisco bate na tela um pouco tardiamente, posto que as obras já foram iniciadas.

Meio que perdeu o barco.

*O repórter viajou a convite da organização do festival


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