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    TIRADENTES 2012: Jazz e desencanto esquentam competição

    Exibição de As Horas Vulgares deu novo ânimo ao festival
    Por Heitor Augusto, enviado especial a Tiradentes
    25/01/2012

    Após um começo desinteressante com o documentário Balança mas Não Cai, a seleção Aurora da Mostra de Tiradentes, dedicada a diretores no primeiro ou no segundo longa-metragem, ganhou novo ânimo na noite de terça-feira (23/1) com a exibição de As Horas Vulgares.

    Dirigida por Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize, o filme se passa em Vitória, Espírito Santo, e tem como centro de ação o encontro de dois amigos, Théo e Lauro, na noite das ruas da cidade e na casa de amigos. Numa bela fotografia em preto e branco, eles lembram do passado, de uma mulher que une a história os dois (ela se chama Clara), das noites de jazz e do desconforto com a falta de ação.

    As Horas Vulgares é imperfeito e irregular, mas tem o mérito de pegar o espectador e colocá-lo num lugar indefinido. Ora esse lugar é agradável, dado a musicalidade do filme, o afeto dos personagens e um comentário sobre o futuro; ora desconfortável, especialmente quando chega a um tom solene e pomposo nos diálogos.

    Há um forte trabalho de composição nessa produção capixaba. A encenação ora prende os personagens, ora os liberta. A fotografia, granulada e em preto-e-branco, automaticamente leva a nossa experiência visual para outro lugar que não o do realismo. As boas interpretações nos convidam a compartilhar um enredo que se desdobra entre idas e vindas em que o espaço temporal é apenas sugerido.

    Interessante notar também que, quando o filme tem conceito, mesmo que a execução não se mantenha em alto nível por todo o tempo, os atores ganham uma ajuda no seu trabalho. Basta observar a atuação de João Gabriel Vasconcelos, que saiu de um filme em que tudo está ruim como Do Começo ao Fim, passou pela novela A Vida da Gente e chega agora a um filme que sabe o que quer.

    O mesmo vale para outros nomes do elenco como Tayane Dantas, que da série A Vida Alheia encontra outro tipo de dramaturgia longe do realismo.

    Mas faltou também a As Horas Vulgares um pouco mais de depuro aos diálogos, que em alguns momentos atingem um formal e de grande discurso, mas que não passa da superficialidade. Comentários sobre a falta de perspectiva, o futuro, o desconforto, o amor, o cotidiano: ora interessantes, ora descartáveis.

    Na sequência mais marcante do filme, em que um jazz ilumina a cidade e as almas dos personagens, é impossível não lembrar de outro grande momento do cinema brasileiro recente: Os Monstros. O diálogo entre as duas cenas representa como a produção nacional alternativa, que tem ganho espaço aqui na Mostra de Tiradentes, reflete um certo humor artístico que compartilha questões similares. Uma das mais recorrentes é a criação confrontada com a falta de perspectiva.

    As Horas Vulgares é uma injeção de ânimo para quem acompanha a seleção Aurora da Mostra de Tiradentes.

    *Heitor Augusto viajou a convite da organização do festival.