Conheça a trajetória e os marcos do Cinema Negro

Entenda a importância do gênero e as abordagens dos negros nas telas

12/06/2020 17h30 (Atualizado em 20/10/2020 16h36)

Por Thamires Viana

Ainda vivemos períodos muitos sombrios, onde a intolerância toma o espaço do respeito e o ataque às minorias continua constante. Parece uma frase tirada do início do século XX, mas estamos falando do agora, do mundo contemporâneo onde as lutas permanecem grandes para que a igualdade seja, de fato, conquistada.

Há alguns meses vivenciamos uma onda de protestos em todo o mundo contra o racismo e a repressão policial após a morte de George Floyd, afro-americano assassinado por um policial branco em maio. No meio de tudo isso, os questionamentos sobre o lugar do negro na sociedade reacenderam discussões sobre a importância do povo preto ocupar cada vez mais espaços.

Quando introduzimos o assunto no audiovisual, um dos movimentos que discutem e lutam pela representatividade negra nesse mercado está no leque da indústria cinematográfica: o Cinema Negro. Sua importância vem sendo cada vez mais debatida por personalidades do meio e evoluindo, ainda, em pequenos passos.

O início do cinema negro e seus pioneiros

Cena de Xica da Silva

Brasil

No Brasil, foi em 1964, durante a ditadura militar, que o Cinema Novo traria um olhar crítico e diferente ao mercado brasileiro. Um dos maiores movimentos cinematográficos da história do país foi inspirado na Nouvelle Vague - movimento francês - e surgiu como uma resposta afrontosa ao cinema tradicional dos anos 50. Este trazia às bilheterias brasileiras histórias no maior estilo hollywoodiano, quase sempre composto por musicais e comédias, e muitas vezes financiadas por produtoras estrangeiras.

O Cinema Novo tinha como principal abordagem as críticas às condições raciais e sociais das classes populares. Pioneiros do movimento, Glauber Rocha e Cacá Diegues trouxeram frescor ao abordar histórias e cultura afro-brasileiras para a indústria, com filmes como Barravento e Xica Da Silva, dirigidos respectivamente por eles, e até hoje citados como grandes expoentes do movimento.

No entanto, foi somente no início da década de 70 que um cineasta focou na valorização da cultura negra brasileira. Zózimo Bulbul dirigiu o curta Alma no Olho em 1974 e trouxe uma reflexão sobre a chegada dos africanos escravizados no Brasil. Em 1988, 100 anos após a Lei Áurea abolir a escravidão, ele lançou o documentário Abolição, que fala sobre a vida do negro no país em aspectos sociais, culturais e históricos. O longa busca também trazer uma reflexão crítica ao centenário da Lei assinada pela Princesa Isabel em 1888.

Entre outros trabalhos significativos de Zózimo estão Samba no Trem (2001), Pequena África (2002) e Renascimento Africano (2010).

Estados Unidos

Em 1912, William D. Foster, produtor de cinema afro-americano e um dos pioneiros na indústria cinematográfica negra, lançava The Railroad Porter, creditado como o primeiro cinejornal preto da história e o primeiro do mundo a contar com um elenco inteiramente negro. A produção trazia cenas de um desfile da YMCA, organização juvenil cristã, e quebrava esteriótipos raciais.

Foster, além de ator, produtor e escritor, também foi o primeiro afro-americano a fundar uma empresa de produção cinematográfica: a Foster Photoplay. Quatro filmes foram produzidos pela companhia, incluindo o The Railroad Porter, que acabou se tornando um dos mais significativos e lucrativos de Foster. 

Outro grande nome do cinema negro americano é Oscar Micheaux, diretor e roteirista de mais de 40 filmes, e pioneiro dos chamados race pictures, filmes de baixo orçamento que eram produzidos por e para negros durante o estopim da segregação racial nos EUA. The Homesteader, filme lançado em 1919 e baseado em um livro homônimo de Micheaux, é considerado o primeiro longa-metragem feito na história com elenco e equipe negros para um público negro.

- L.A. Rebellion (Rebelião de Los Angeles)

Um dos movimentos cinematográficos de grande importância para o cinema negro foi o L.A. Rebellion, criado por jovens cineastas afro-americanos estudantes da Universidade da Califórnia no final dos anos 1960. Como parte de uma iniciativa criada para responder às comunidades de cor após o Movimento dos Diretos Civis - incluindo também asiáticos, africanos e indígenas - o grupo ingressou na Escola de Teatro, Cinema e Televisão da UCLA e criou um movimento que trazia aspectos anteriormente desconhecidos da história negra americana.

L.A. Rebellion foi uma alternativa ao cinema tradicional hollywoodiano e os trabalhos traziam um olhar de seus cineastas para a realidade do negro na sociedade americana, além de abordagens como ancestralidade, luta por uma sociedade mais igualitária, questões de gênero, orgulho negro e proximidade com movimentos negros como os Panteras Negras, e de ativistas como Martin Luther King e Malcolm X.

África

Com o avanço do mercado cinematográfico, cada vez mais cineastas estrangeiros tentavam retratar a realidade da África em seus trabalhos. Contestando a abordagem estereotipada dos filmes, movimentos artísticos emergiram no continente e abriram portas para que o povo africano trouxesse um olhar próprio sobre si mesmo nas telas.

Um dos grandes marcos do cinema africano é o curta Afrique-sur-Seine, produzido em 1955 por estudantes africanos. Com 22 minutos de duração, o filme foi gravado em Paris e e conta sobre a vida desses estudantes e a saudade que sentem de sua terra natal.

Na década de 60, as lutas anticoloniais também trouxeram outro grande marco para a indústria cinematográfica africana. Ousmane Sembène, cineasta senegalês, é considerado o "pai do cinema africano" e teve reconhecimento internacional ao lançar Garota Negra, longa de 1966 estrelado por Mbissine Thérèse Dio, que conta a história de uma mulher africana que vai para Paris trabalhar como doméstica.

A abordagem dos negros no cinema influenciada pela segregação racial nos EUA

Pôster de O Nascimento de Uma Nação

Mesmo após a abolição da escravidão no final do século XIX nos Estados Unidos, os negros foram submetidos a uma segunda segregação racial institucionalizada pelo Estado. As leis Jim Crow foram instauradas na década de 1870 e legalizavam a separação entre brancos e negros no sul dos EUA, impedindo que afro-americanos frequentassem escolas, transportes, parques, entre outros locais públicos.

A segregação gerava uma onda de protestos, incluindo o boicote ao transporte de Montgomery após Rosa Parks, uma mulher negra, ser condenada por negar seu lugar no ônibus para um homem branco, e a Marcha de Selma, passeata liderada por Martin Luther King para reivindicar direitos básicos e fundamentais para os negros do país.

50 anos antes da chamada Era Jim Crow ser finalmente revogada com a Lei dos Direitos Civis de 1964 e com a Lei dos Diretos de Voto em 1965, O Nascimento de Uma Nação, filme lançado em 1915, era lançado.

O longa-metragem mudo escrito e dirigido por D. W. Griffith foi um dos grandes marcos do cinema mundial e é até hoje estudado por suas técnicas e efeitos revolucionários. No entanto, sua abordagem supremacista é escancarada, sendo considerado um dos eventos que impulsionaram o ressurgimento da Ku Klux Klan.

A trama baseada no romance e na peça The Clasman, de Thomas Dixon Jr., conta a história de duas famílias, uma do Norte e outra do Sul dos Estados Unidos, durante a Guerra de Secessão e a Reconstrução dos Estados Unidos. Nele, os negros - vividos por atores brancos usando blackface - são retratados de forma animalesca, violenta e tidos como um grande perigo para as mulheres brancas. Nas cenas, muitas vezes aparecem acorrentados e são espancados pela organização de supremacia branca do filme.

Essa abordagem resultaria em muitos outros trabalhos estereotipados por negros no cinema mundial. É comum que os atores homens ainda assumam papéis de escravos, criminosos ou marginalizados até os dias de hoje e que atrizes negras assumam muitas vezes papéis de mulheres raivosas, mães solteiras e empregadas.

Conheça dois dos esteriótipos usados até hoje nos cinemas:

- Negro Mágico 

Cena de A Espera de Um Milagre


O estereótipo do negro mágico pode ser tido como "positivo", mas é problemático por enfatizar a figura do negro exótico e o coloca como uma classe diferente dos seres humanos. O negro é retratado quase sempre como uma pessoa isolada, seja por discriminação, deficiência ou restrição social.

Nessa abordagem, o personagem geralmente não tem uma história própria e seu único objetivo na trama é ajudar um protagonista branco, proferindo palavras de sabedoria e altruísmo. Ele também pode ser retratado como alguém que possui poderes sobrenaturais - como em À Espera De Um Milagre e Lendas Da Vida - ou que se sacrifica para salvar o branco - como em Acorrentados (1958).

O termo foi popularizado em 2001 por Spike Lee, grande nome do cinema negro contemporâneo, ao dizer que estava cansado de ver essa abordagem em Hollywood. Ele afirmou que isso é um retrocesso e uma nova roupagem para antigos estereótipos problemáticos. "Eles ainda estão fazendo a mesma coisa: reciclando o 'nobre selvagem' e o 'escravo feliz'", revelou.

- Negra raivosa

Cena de Todo Mundo Odeia o Chris


Já reparou que na maioria das comédias hollywoodianas as mulheres negras são quase sempre bravas e mandonas? Esse é um dos mais comuns atualmente e foi idealizado pela forma como a mulher negra era tratada na escravidão. Servindo à casa como criada, satisfação dos prazeres sexuais do homem branco e no trabalho pesado nos campos, elas não eram vistas como um ser feminino.

Esse distanciamento da feminilidade gerou interpretações de que a mulher negra não aceita afeto e está quase sempre pronta para dominar uma situação.

Alguns exemplos desse estereótipo estão em produções como Vovó... Zona, A Casa Caiu e na personagem Rochelle da série Todo Mundo Odeia o Chris.

A busca pela representatividade

Com o avanço de serviços de streaming e o aumento do acesso a conteúdos audiovisuais, é fácil concluir que a representatividade vem influenciando cada vez mais a vida da população negra adepta do entretenimento.

Em uma pesquisa realizada em 2011 e publicada pelo Sage Jornals, os resultados revelaram que os conteúdos televisivos estão ligados diretamente à autoestima das crianças. O estudo entrevistou 396 meninos e meninas (negros e brancos) e comprovou que enquanto os meninos brancos viam sua autoestima ser elevada ao assistirem programas televisivos, as meninas brancas e as crianças negras viam a diminuição da autoestima com os conteúdos.

Ainda há uma problemática sobre a abordagem da estética corporal no audiovisual que influencia diretamente na autoestima dessas crianças (brancas e negras), e, além disso, as abordagens do negro no entretenimento e também a falta de representatividade deles nas telas são mais dois fatores que influenciam a diminuição da autoestima nas crianças negras.

Outra importante pesquisa realizada em 2018 pela USC Annemberg, iniciativa que estuda a diversidade e a inclusão no entretenimento, apontou que de 1.100 filmes que se destacaram em 2017, 70,7% dos papéis eram brancos, enquanto apenas 12,1% eram negros. Os outros 17,2% se dividiam entre hispânicos, asiáticos e outros.

No Brasil a história também não é muito diferente. Uma pesquisa divulgada pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 2018 usou como base 172 filmes nacionais que entraram em cartaz em 2016. Os resultados apontaram que 75,4% dos filmes tinham direção assinada por homens brancos, enquanto as mulheres brancas assinaram 19,7% deles. Já os homens negros foram apenas 2,1% da pesquisa, enquanto nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.

Em atuação, a participação nos elencos também foi extremamente baixa entre a população negra, já que de 97 filmes brasileiros de ficção lançados em 2016, o percentual de negros foi de apenas 13,4%.

Os marcos do cinema negro

A diretora Ava Duvernay


O Cinema Negro ainda caminha a curtos passos, mas desde o começo alguns fatos importantes ficaram marcados na história do gênero que representa a luta e a representatividade do povo preto nas telas.

- Primeiro Oscar para uma atriz negra

Apesar de ter sido apenas destinada a papéis estereotipados de empregada, Hattie McDaniel marcou seu nome na história da indústria cinematográfica. Filha de ex-escravos, a atriz foi a primeira mulher negra a conquistar uma estatueta do Oscar (1940) por seu papel em E o Vento Levou..., clássico do cinema mundial. 

Sua vitória na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante pela personagem Mammy é celebrada até os dias atuais, mas foi marcada de muita discriminação na época: a atriz precisou de uma autorização especial para adentrar o Teatro no dia da cerimônia e foi colocada em uma mesa no fundo do salão. Além disso, ela não pôde posar para a popular foto de elenco com os outros atores.

Após os protestos contra o racismo nas últimas semanas, E o Vento Levou... foi retirado do catálogo de streaming HBO Max por sua representação de escravos conformados e proprietários de escravos apresentados como heróis.

- Primeiro Oscar para um ator negro

Foi em 1964 que um ator negro se tornou o primeiro a levar a estatueta dourada para casa. Sidney Poitier foi eleito o Melhor Ator por seu trabalho em Uma Voz Nas Sombras.

Na trama, ele vive um operário desempregado que passa a ajudar nas tarefas diárias de uma propriedade de freiras católicas. Em 2002, Poitier foi contemplado novamente com um Oscar, dessa vez honorário, por sua contribuição ao cinema.

- Spike Lee leva seu merecido Oscar e faz discurso potente no palco

"Os ancestrais que vão nos ajudar a ganhar nossa humanidade. Vamos nos mobilizar, estar do lado certo da história. É uma escolha moral. Do amor sobre o ódio. Vamos fazer a coisa certa". Essa frase foi dita pelo diretor Spike Lee em um memorável discurso ao vencer o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Infiltrado Na Klan em 2019.

Lee tem uma carreira consolidada no cinema há quase 40 anos com longas memoráveis, Ele foi indicado cinco vezes à premiação, incluindo a categoria de Melhor Roteiro Original por Faça A Coisa Certa, um dos filmes mais emblemáticos de sua carreira e um divisor de águas na história do cinema negro atual. No entanto, nunca havia saído vencedor da cemirômia.

Aquele mês de fevereiro no qual Lee saiu carregando sua primeira estatueta da carreira, não era um mês qualquer. No palco, o diretor relembrou que aquele era mês e o ano da história negra, já que se completavam 400 anos desde que, em 1619, os negros foram sequestrados da África e levados escravizados para os Estados Unidos.

- Pantera Negra e o marco no cinema de super-heróis

Um exemplo recente de acerto na representatividade é o filme Pantera Negra, primeiro super-herói negro de origem africana a chegar às telonas. Sucesso entre crianças, o Universo Cinematográfico da Marvel ainda não havia trazido às telas um super-herói negro para representá-las. Com a chegada do filme, as redes sociais foram tomadas de fotos de crianças negras posando ao lado do pôster do personagem.

O filme estrelado por Chadwick Boseman arrecadou US$ 1,3 bilhão nas bilheterias mundiais e se tornou um dos filmes mais rentáveis da história em bilheterias domésticas, somando mais de US$ 700 milhões nos EUA.

- Ava Duvernay foi a primeira diretora negra a ser indicada ao Globo de Ouro

Em 2014, a diretora Ava Duvernay foi a primeira diretora negra indicada à categoria de Melhor Direção por Selma, um dos filmes mais emblemáticos de sua carreira. O longa indicado na categoria de Melhor Filme no Oscar de 2015, acompanha a história do ativista social Martin Luther King, abordando as marchas realizadas por ele e manifestantes em 1965, em busca de direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana.

Recentemente, Ava foi eleita a governadora na Academia do Oscar, subindo para 12 o número de pessoas não-brancas que ocupam o cargo.

- #OscarsSoWhite

E falando da maior premiação da história do Cinema, em 2015 a Academia foi bastante criticada pela falta de minorias entre os indicados. A ausência de negros, principalmente, levou ao um protesto de atores, diretores e público com o uso da tag intitulada "Oscar muito branco". A iniciativa, claro, fez muito barulho na internet.

No ano seguinte, o ator Chris Rock foi escalado para ser o anfitrião da festa e não economizou nas piadas e alfinetadas sobre o assunto, que ainda vinha sendo discutido na mídia.

Em 2017, Moonlight - Sob A Luz Do Luar foi eleito o Melhor Filme do ano, e dois atores negros saíram vitoriosos da cerimônia. Mahershala Ali garantiu seu primeiro Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme, e Viola Davis levou sua primeira estatueta por Um Limite Entre Nós.

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