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    Uma História de Amor e Fúria: Menos sustentável que a ficção

    Longa revela nuances da sociedade contemporânea pela ótica do desenvolvimento sustentável
    Por Robinson Machado
    10/04/2013

    O passado é o que está acontecendo agora. Essa frase, na voz de Selton Mello no filme Uma História de Amor e Fúria (em cartaz nos cinemas) é emblemática nesta década de acaloradas discussões sobre novas estruturas sociais, os rumos conturbados da economia e as mudanças climáticas.

    A animação roteirizada e dirigida por Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade) relembra que, ao longo da história do Brasil, muitos erros se repetiram e passaram quase que invariavelmente pelos mesmos motivos: luta de classes, opressão, disputa inconsequente por poderio econômico e displicência diante do uso de recursos naturais. No filme, esse fio condutor demasiadamente humano interliga o período da colonização, a origem do cangaço do nordeste brasileiro, os Anos de Chumbo e o futuro, mais precisamente o ano de 2096. Parece haver uma lacuna proposital aí: a década de 90 e os primeiros anos 2000 ficaram de fora do enredo justamente para que o expectador se coloque por um momento no lugar do herói furioso e apaixonado do longa-metragem e, com isso, pense um pouco sobre a atualidade e seu próprio papel como cidadão.

    Isso faz mais sentido ainda se observarmos que, em cada fase filme, o protagonista imortal se torna um revolucionário e assume a função de defensor de minorias. Ele atua como agente da mudança, exceto no período do final do século XXI, momento em que desiste de lutar e se torna indiferente às mazelas daquele período. Os problemas do futuro pressagiados pela animação parecem um tanto prováveis: milícias particulares que detém o monopólio da segurança, a falta de água como o mote de uma guerra civil, apatia política e alicerces sociais baseados em consumismo. Qualquer semelhança com fatos reais do ano de 2013 não será mera coincidência graças à participação de antropólogos e historiadores consultados por Bolognesi para o desenvolvimento da obra.

    Revolução sustentável – A reflexão suscitada pela saga, que atravessa os tempos por meio de fatos extremos sobre escravidão, totalitarismo e violência urbana, tenta nos empurrar ao desejo de fazer alguma coisa para evitar a escassez de recursos naturais, para promover a justiça social e para construir um sistema econômico equilibrado.

    Hoje em dia não é difícil imaginar que a sustentabilidade se apresenta como a revolução contemporânea necessária, que pode e precisa ser entendida muito além de uma bandeira verde tremulada como a solução de todos os males atuais.




    A complexidade da problemática atual exige que ações sustentáveis sejam realmente abrangentes e alcancem toda a magnitude do seu conceito. Hoje, ao invés de pegar em armas, a sustentabilidade pode ser a ferramenta da mudança. Educação, engajamento e conhecimento compartilhado são fundamentais para esse novo tipo de luta.

    Não será um único herói ou ideia a mudar a história, mas sim uma série de mudanças em cadeia em todas as camadas da sociedade. A máxima do “cada um fazer a sua parte” é determinante na soma de esforços para que isso aconteça – do indivíduo às instituições ou mesmo do poder público ao setor privado. O ponto chave é saber observar o que realmente é ou o que poderia ser feito hoje para que o desenvolvimento sustentável seja uma realidade que assegure um futuro equilibrado nos fatores econômicos e socioambientais. Mais do que observar, é preciso agir, seja pelo amor ao próximo ou mesmo pela fúria de não aceitar passivamente a imposição de uma realidade supostamente imutável.

    O convite de Luiz Bolognesi com seu filme – que durou cerca de seis anos e 25 mil desenhos para ser feito – mostra que podemos usar a história de uma forma menos contemplativa ou, ao menos, viver o presente sem indiferença pelo todo. Se o futuro é o que está acontecendo hoje, já temos uma ideia do que virá nas próximas décadas se não nos tornarmos protagonistas das mudanças imortais que tanto desejamos.