Ursinho Ted, Protógenes e a pouca tolerância do público

Filme aumentou em 10% seu público depois da polêmica

03/10/2012 12h53

Foto: Divulgação


Depois de levar seu filho de 11 anos para assistir ao filme Ted - não recomendado para menores de 16 anos - o deputado federal Protógenes Queiroz (PC do B-SP) bradou cheio de empáfia que iria acionar os "meios legais" para proibir a exibição do filme no país por, segundo ele, fazer apologia ao uso de drogas. 

Dias depois abrandou sua sana proibitiva e contentou-se em solicitar ao Ministério da Justiça que mudasse a classificação etária de 16 anos para 18 anos. Não conseguiu nenhuma coisa nem outra, apenas virar motivo de deboche nas redes sociais e fazer o longa aumentar em 10% o público na segunda semana de exibição – 550 mil brasileiros já foram ver o ursinho adicto nos cinemas. Ted agradece, vossa excelência.

A atitude intransigente e pouco liberal do deputado Protógenes serve de alerta num país onde, de tempos em tempos, surge alguma “autoridade” querendo investir contra a liberdade de expressão assegurada pela Constituição dentro de um estado de direito. Somos um país livre da lesiva censura, onde cabe ao Ministério da Justiça tão somente fazer a classificação indicativa dos filmes (o que faz muito bem) para os pais terem uma ferramenta de orientação ao deciddir o que os filhos devem ou não ver na tela. Qualquer medida além é cerceamento de liberdade.

Intransigência na sala de cinema

O episódio também chama a atenção, mesmo que indiretamente, para um padrão de comportamento cada vez mais comum entre os espectadores: a pouca tolerância com produtos culturais que, de alguma forma, causem desconforto ao desafiar ideias, modelos e conceitos estabelecidos.

Recentemente, assídua leitora deste site deixou comentário na página do filme O Ditador afirmando ter abandonado a sessão pela metade em protesto por uma piada. Na cena o protagonista, o general Aladeen, joga um game inspirado no massacre de israelenses na Olimpíada de Munique.

Não se discute o direito da espectadora abandonar a exibição deste ou de qualquer filme quando bem entender, como também não se deve contestar o direito do comediante Sacha Baron Cohen de fazer seu humor politicamente incorreto, até porque Aladeen, síntese dos ditadores árabes tresloucados, é retratado como um grande idiota megalomaníaco, algo fácil de ser percebido.

O que chama a atenção é a pouca flexibilidade de parte do público ao novo, ao diferente, ao incômodo, à provocação, algo intrínseco e bem-vindo quando tratamos de arte. E cinema, por mais que esteja inserido dentro de um padrão comercial de exibição, e muitas vezes também de realização, é arte em sua essência. Deixar uma sala de exibição antes do término do filme é uma medida radical, ainda mais quando o motivo é estar contrafeito com uma posição diferente.

Reações exageradas de repulsa a filmes cujo conteúdo não estão alinhados com nosso jeito de ver o mundo parecem reflexo de uma sociedade cada vez mais individualista e hedonista. A priorização dos momentos de prazer vem fazendo parte do público encarar a arte cinematográfica como mero lazer, um entretenimento de fim de semana. E se estou pagando para me divertir, não posso ser afrontado em minhas confortáveis certezas e convicções. Ideia muito mais perigosa que o inofensivo ursinho Ted.


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