V de Vingança e a origem da máscara dos protestos

Trama pode ser comparada com a realidade de hoje

09/06/2020 17h20 (Atualizado em 12/06/2020 09h47)

Por Daniel Reininger

A adaptação de V De Vingança, de Alan Moore e David Lloyd, trata de um anarquista chamado V que promove uma campanha terrorista para derrubar o governo fascista de uma Inglaterra distópica. Lançada originalmente entre 1982 e 1989, a trama mostra um futuro sombrio e, ainda assim, muito do que se vê na HQ pode ser comparado com a realidade de hoje.

O longa com Natalie Portman e Hugo Weaving e produzido pelas irmãs Wachowski, as mesmas de Matrix, ajudou a difundir a máscara usada vários grupos de protesto atual, afinal, tanto o longa como a HQ se tornaram sinônimo de resistência e do espírito revolucionário na luta contra injustiças. Mas ao mesmo tempo em que V de Vingança ataca o fascismo, também questiona o anarquismo e seus métodos.

Luta contra tirania

V de Vingança foi publicado pela primeira nos anos 80 na revista de quadrinhos britânica de vanguarda Warrior, antes da DC Comics decidir assumir a publicação. A história acompanha um homem que luta contra a tirania em uma Inglaterra dominada pelo governo bastante inspirado no clássico da literatura 1984, escrito por George Orwell em 1949.

Sob o codinome V (Hugo Weaving), ele organiza diversas ações terroristas com o objetivo de chamar a atenção da população em relação ao tipo de governo que os lidera. Um país que prende, tortura, mata negros e homossexuais; elimina qualquer rastro de cultura, como música, cinema e artes plásticas; e manipula a população por meio da mídia. Qualquer semelhança com o Nazismo não é mera coincidência.

Inspirados na Alemanha dos anos 30, assolada pelo desemprego, que viu nascer o nazismo, e também pelo governo de extrema direita de Margaret Thatcher, na Inglaterra, os dois ambientaram a narrativa numa Grã-Bretanha futurista e distópica comandada por um governo fascista. Contra ele, a dupla criou um personagem em busca de vingança, que havia sido perseguido e torturado e não tinha mais identidade: V.

Lloyd veio então com a ideia de usar Guy Fawkes como símbolo e com a com o plano de seu herói ter sucesso em sua trama onde o conspirador de 1605 havia falhado. Daí veio também a máscara do revolucionário da Graphic Novel.

Revolucionário

Mas quem era Guy Fawkes? Bem, ele foi um soldado inglês que teve participação na "Conspiração da Pólvora", cujo plano era assassinar o rei protestante Jaime I da Inglaterra e todos os membros do parlamento durante uma sessão em 1605. Esse ato seria o início de um levante popular.

V de Vingança

Ele foi o responsável por preparar os barris de pólvora que seriam utilizados na explosão. Entretanto, a conspiração falhou e Fawkes foi condenado à forca por traição e tentativa de assassinato. Sua captura é celebrada até os dias atuais no dia 5 de novembro.

Fawkes se tornou símbolo de novas gerações de revolucionários graças a Alan Moore e David Lloyd, que buscavam um personagem para sua graphic novel V de Vingança. 

Pequenas conquistas

Na história da HQ, a Grã-Bretanha se tornou um estado autoritário sem minorias étnicas, sem homossexuais, sem radicais, sem pessoas trans. Qualquer pessoa que não seja hétero, branca e complacente desapareceu nos campos de concentração, assim como todo tipo de arte ou possibilidade de pensamento crítico.

Como contraste, V possui um esconderijo secreto repleto de arte e outros elementos da sociedade britânica, que foram sistematicamente apagados da história. Entretanto, é importante perceber que V não quer só devolver a democracia ao mundo, ele passou desse ponto e quer criar um estado onde todo mundo faz o que quer. Aí está a crítica ao extremismo, que vemos nos olhos de Evey, personagem de Natalie Portman e importante demais para a trama e para entendermos a situação como um todo.

Embora a luta de V contra a nova ordem mundial pareça o ponto principal da trama, na verdade ele serve como símbolo para fazer as pessoas acordarem. E são as pequenas lutas contra a autoridade que impulsionam a narrativa, seja quando Evey desafia o governo repetidas vezes ou quando personagens comuns e sem significância para a trama percebem que podem fazer mais para criar um estado mais justo, como por exemplo quando um policial questiona a diferença entre a lei aprovada pelo estado e a justiça verdadeira, quando uma criança picha um pôster de propaganda estatal, e assim por diante.

Um dos momentos mais impactantes da trama é quando conhecemos a história de Valerie Page, uma atriz lésbica que ocupava a cela ao lado de V, antes dele fugir e se tornar um revolucionário. Suas memórias manuscritas, escondidas na parede da prisão, inspiram V a escapar do campo de concentração e, mais tarde, incentivam Evey a enfrentar seu encarceramento injusto pelo Estado.

O filme

V De Vingança funciona muito bem como cinema, independente de ser baseada em uma HQ tão respeitada. Como adaptação, existem, sim, vários fatores da história original que não foram levados à tela. O roteiro da HQ é muito mais complexo, com mais personagens e tramas paralelas, mas o filme tem também grande valor.

O mais importante é que a história é muito boa e ambos os formatos de V de Vingança guardam muitas semelhanças com o que vemos na sociedade moderna. É uma obra atemporal e relevante, que não só serve como aviso, mas também como reflexão. 

O longa está diponível na HBO Go, Google Play, Looke.

Veja o trailer do filme, em inglês:

 

Nessa matéria você leu sobre: V De Vingança 

 

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